quinta-feira, 23 de julho de 2015

O COMUNISMO MATA.

 Os fatos são tenazes e mostram que os regimes comunistas mataram mais de 100 milhões de pessoas, contra 25 milhões de pessoas atingidas pelo nazismo. Essa simples constatação deve, pelo menos, provocar uma reflexão comparativa sobre a semelhança entre o regime que foi considerado, a partir de 1945, como o regime mais criminoso do século, e um sistema comunista que conservou, até 1991, toda a sua legitimidade internacional e que, até hoje, está no poder em alguns países, mantendo adeptos no mundo inteiro.  Assim, os mecanismos de segregação e de exclusão do “totalitarismo da classe” se parecem singularmente àqueles do “totalitarismo da raça”. Á sociedade nazista futura devia ser construída em torno da “raça pura”; a sociedade comunista futura, em torno de um povo proletário, purificado de toda escória burguesa. O remodelamento dessas duas sociedades foi planejado do mesmo modo, apesar de os critérios de exclusão não serem os mesmos. Portanto, é falso pretender que o comunismo seja um universalismo: se o projeto tem uma vocação mundial, uma parte da humanidade é declarada indigna de existir neste mundo, como no caso do nazismo; a diferença é que um recorte por estratos (classes) substitui o recorte racial e territorial dos nazistas. Logo, os empreendimentos leninista, stalinista, maoísta e a experiência cambojana põem à humanidade - assim como aos juristas e historiadores - uma nova questão: como qualificar o crime que consiste em exterminar, por razões político- ideológicas, não mais indivíduos ou grupos limitados de oponentes, mas partes inteiras da sociedade? É preciso inventar uma nova denominação? Alguns autores anglo-saxões pensam dessa forma, criando o termo “politicídio”. Ou é preciso chegar, como o fazem os juristas tchecos, a qualificar os crimes cometidos pelos regimes comunistas como “crimes comunistas” A atenção excepcional concedida aos crimes hitleristas é perfeitamente justificada. Ela responde à vontade dos sobreviventes de testemunhar, dos pesquisadores de compreender e das autoridades morais e políticas de confirmar os valores democráticos. Mas por que os testemunhos dos crimes comunistas têm uma repercussão tão fraca na opinião pública? Por que o silêncio constrangido dos políticos? E, sobretudo, por que um silêncio “académico” sobre a catástrofe comunista que atingiu, há aproximadamente 80 anos, um terço da espécie humana, sobre quatro continentes? Por que essa incapacidade de situar no centro da análise do comunismo um fator tão essencial quanto o crime, o crime de massa, o crime sistemático, o crime contra a humanidade? Estamos diante de uma impossibilidade de compreensão? Não se trata, antes, de uma recusa deliberada de saber, de um medo de compreender? O fechamento absoluto dos arquivos dos países comunistas, o controle total da imprensa, da mídia e de todas as saídas para o exterior, a propaganda do “sucesso” do regime, toda essa máquina de ocultar informações visava, em primeiro lugar, impedir que viesse à luz a verdade sobre os crimes.  Não contentes em esconder seus delitos, os carrascos combateram por todos os meios aqueles que tentavam relatá-los.Contra todos esses esclarecedores da consciência humana, os carrascos desenvolveram, num combate sistemático, todo o arsenal dos grandes Estados modernos, capazes de intervir no mundo inteiro. Eles procuraram desqualificá-los, desacreditá-los, intimidá-los. A. Soljenitsyne, V. Bukovsky, A. Zinoviev L. Plichki foram expulsos de seu país, André Sakharov foi exilado em Gorki, o general Piotr Grigorenko, abandonado num hospital psiquiátrico, Markov, assassinado com um guarda-chuva envenenado.Quando não conseguiam manter a verdade escondida - a prática dos fuzilamentos, os campos de concentração, a fome imposta -, os carrascos tramavam a justificação dos fatos maquiando-os grosseiramente. Depois de terem reivindicado o terror, eles o erigiram como figura alegórica da revolução: “quando se corta a floresta, as farpas voam”, “não se pode fazer uma omelete sem se quebrarem os ovos”. A isto Vladimir Bukovski replicava ter visto os ovos quebrados, mas não ter nunca provado omeletes. Mas, sem dúvida, foi com a perversão da linguagem que se chegou ao pior. Através da magia vocabular, o sistema dos campos de concentração tornou-se obra de reeducação, e os carrascos, educadores aplicados em transformar os homens de uma sociedade antiga em “homens novos”. Pedia-se, através da força, aos zeks - termo que designa os prisioneiros dos campos de concentração soviéticos - para que acreditassem num sistema que os subjugava. Na China, o interno na concentração é denominado “estudante”: ele deve estudar o pensamento justo do partido e reformar o seu próprio pensamento imperfeito.  Como acontece com freqüência, a mentira não é, strícto sensu, o inverso da verdade, e toda mentira se apoia sobre elementos verdadeiros. As palavras pervertidas aparecem como uma visão deslocada que deforma a perspectiva de conjunto: somos confrontados a um astigmatismo social e político. Ora, é fácil corrigir a percepção deformada pela propaganda comunista, mas é muito difícil reconduzir aquele que percebeu erroneamente a uma concepção intelectual pertinente.Esse silêncio, que sucede geralmente a algum momento de sensibilização provocado pela emergência de uma obra - UArchipel du Goulag, de Soljenitsyne -. ou de um testemunho mais incontestável do que outros - Lês Récits de Ia Kolyma, de Variam Chalamov, ou L’Utopie meurtrière, de Pin Yathay -, mostra uma resistência própria aos vários e diferentes segmentos das sociedades ocidentais no que diz respeito ao fenómeno comunista; eles se recusam, até o momento, a encarar a realidade: o sistema comunista comporta, ainda que em graus diversos, uma dimensão fundamentalmente criminosa. Com esta recusa, as sociedades participaram da mentira, no sentido aludido por Nietzsche: “Recusar-se a ver algo que se vê; recusar-se a ver algo como se vê”. 



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